CULTURA

O Carnaval pontenovense pós-anos 1940: novos cenários da folia

14/02/2024 09:00




Esta FOLHA divulga relato sobre a história do Carnaval em Ponte Nova, a partir de trabalho de mestrado em Patrimônio Cultural, Paisagens e Cidadania de Janice Estarlino Vidal, moradora do distrito do Pontal, em 2019, na conclusão do Curso de História na Universidade Federal de Viçosa/UFV.

Janice conta que em 1946 saíram pela av. Caetano Marinho os Blocos “Tampinha” e “Garrafinha”. E ocorreram  bailes nos clubes Pontenovense FC e SE Primeiro de Maio.

Em 1947, uma nota no jornal A Notícia descreve que "a cidade viveu intensamente os três dias de Momo, contando para a diversão com blocos, cordões, carros alegóricos e de crítica, desfile de mascarados e foliões portando reco-recos, pandeiros e tamborins". A pesquisadora, entretanto, pondera que “os instrumentos citados foram conceituados na escrita do jornal como sendo bárbaros e exóticos, provavelmente pela associação com a cultura musical negra”. 

Janice aponta a dicotomia entre as festas de clubes e de rua, mas ressalta notícia do Jornal do Povo citando “uma criança bastante animada sambando na matinê do Clube Pontenovense”. O samba, portanto, iniciado pelos batuques e alvo de preconceitos, não somente ganhou destaque entre as camadas populares, mas também já se encontrava inserido nas festas da elite local.

Em 1948, foi noticiada novamente a festa na av. Caetano Marinho. Há informações sobre os preparativos e a divulgação de que “todos os blocos, cordões e ranchos que quiserem desfilar devem pedir licença policial”. Assinala a pesquisadora Janice:  “Os ranchos até então não haviam sido citados como manifestações carnavalescas da localidade (o que não significa que não existiam). Eles foram uma importante influência para o desenvolvimento das Escolas de Samba.”

No ano de 1950, também há notícias de Carnaval no município, no entanto é destacada a festa nos clubes Primeiro de Maio e Pontenovense. "Várias manifestações carnavalescas aconteceram em Ponte Nova na primeira metade do século XX, seguindo a tendência nacional. Comprovou-se, na pesquisa, a conexão desse município do interior com as práticas culturais de destaque no cenário brasileiro”, informou  Janice para continuar:

“Ao longo da primeira metade do século XX, as ruas foram o principal palco dos eventos carnavalescos realizados pelos populares, e os clubes foram, sobretudo, destinados a uma população possuidora de melhor poder aquisitivo. No entanto, não significa que não houvesse pessoas da elite nas ruas e muito menos que não houvesse um morador da periferia nos clubes.”

Noutra etapa de sua pesquisa, Janice destaca: "A folia não ocorria livremente, ainda mais no recorte temporal de estudo, período em que as regras de decoro dominavam os gestos sociais. Nem todas as manifestações são aceitas por todos, e aqueles que são contrários a elas criam meios para tentar contê-las e, no que diz respeito às formas de reprimir." Ela pesquisou, no Código de Posturas Municipais, algumas proibições relacionadas ao divertimento.

A partir de 1986, por exemplo, o Código vetava “dança, batuque e algazarra no recinto da povoação, com multa de 20 mil réis ao dono da casa, além da obrigação de desfazer o ajuntamento”. Essa condição “nos faz questionar como as práticas sociais ligadas ao divertimento das populações pobres e de matriz africana feriam os costumes aceitos na época”.

Na avaliação de Janice, “até terem sua cultura musical reconhecida, negros e negras tiveram que lidar com a inferiorização em diversos campos, como o econômico, social e cultural, pois, conforme é sabido, o preconceito era direcionado a tudo que tivesse vínculo com a pessoa negra”.

Um exemplo remonta ao ano de 1922, quando o jornal A Notícia noticiou a agressão a um homem negro, apresentando os agressores como pessoas valentes, e a vítima, que não teve seu nome revelado, foi identificada como um “creoulo”. O crime cometido pelo homem negro foi se fantasiar de mulher e sair pelas ruas semanas antes do Carnaval. Esse foi o motivo de levar uma “surra”, na qual “escovaram-lhe valentemente o pêlo”.

Janice ainda aborda a participação da população negra no Carnaval e a valorização da sua cultura por meio das escolas de samba. A primeira notícia sobre elas tem a data de 1953, o que não quer dizer que foi a primeira manifestação dessas agremiações.

Em 1º/3/1953, a Gazeta da Mata apresentou as duas escolas que desfilaram, a Unidos da Vila (Vila Oliveira) e a Unidos do Sapé (bairro de Fátima). O jornal informou que “rapazes e moças do Sapé foram muito aplaudidos”. Essa notícia contrasta com a divulgada em 1925, ao identificar o Sapé como “local de vagabundos e que deveria ser caso de polícia o fato de sua população ficar nas ruas da cidade evidenciando sua pobreza”.

“Os aplausos a esse desfile de 1953 não se resumem apenas a esse ano. Os aplausos são também para os ancestrais negros que resistiram em manter e transmitir sua cultura. A festa com centralidade negra é simbólica, é repleta de significados perante a história dos homens e mulheres negras que aqui se fixaram pelo processo da diáspora”, escreveu Janice.

Ela entrevistou Carlos Pinto da Paixão, do bairro de Fátima e filho de Totinho Paixão, que foi dirigente comunitário e por fim vereador (1982/1988) e esteve à frente da escola de samba.

Segundo Carlos, a  maioria dos foliões era de cortadores de cana: “Lá embaixo, no centro, eles eram invisíveis, não eram enxergados como pessoas que traziam a economia, que geravam a renda dentro da cidade. Já na hora do desfile, eles se sentiam alguém, se sentiam o rei, porque eram aplaudidos, jogavam confetes, aí eles se sentiam gente. Hoje já está melhor, mas naquela época o preconceito era pesado... até 1980 ainda tinha essa coisa, porque tinha muita gente mais antiga que nos criaram com esse ar de inferioridade.”

O jornal Gazeta da Mata, em 1953, noticia que a Escola de Samba do Sapé recebeu doações de políticos como: deputados, prefeitos e vereadores, que destinaram verba para a preparação do seu desfile. “Essa informação é relevante, pois demonstra que, se antes essa manifestação com as características populares e seus fortes instrumentos de percussão era sinônimo de desordem, passa a ser motivo de incentivo, inclusive financeiro, o que indica não apenas a aceitação, mas também a valorização dessa prática”, assinalou a pesquisadora.

Em 1954, houve divulgação sobre o desfile de uma terceira agremiação, a Escola de Samba Vila Cruzeiro (também do bairro de Fátima), que “desceu o morro com seus instrumentos de percussão manifestando a herança cultural negra e produzindo uma sonoridade característica da festa”. A notícia da época também destaca alguns nomes importantes do Carnaval no bairro e na cidade, citando Totinho Paixão como organizador da Vila Cruzeiro.

Segundo a reportagem da Gazeta da Mata, “o grupo do Sapé, sob o comando do infatigável Totinho, pretende fazer uma demonstração espetacular durante os três dias, descendo o morro com 30 tamborins, 10 surdos, 3 cuícas, 10 pandeiros e os demais instrumentos de barulho, além de contar com um corpo coreográfico escolhido 'a dedo'. O popular sambista Lucas é o encarregado dos ensaios”.







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