CIDADE

Laene ComVida: 'Acho minha companhia o máximo, porque ela só faz o que eu quero’

03/05/2024 14:00




 Algumas pessoas são figurinhas carimbadas. Pra quem não é do tempo, explico: eram as difíceis de encontrar e geralmente premiavam quem as achasse. Nossa personagem de hoje é desse jeito: rara e autêntica. Encontrá-la é de fato sentir-se contemplada.

Ao seu lado, a tarde passa descomplicada e divertida. Porque, além de direta e franca - “o que eu vou fazer na rua com esse sol quente?!” -, ela tem cada tirada: “O anjo de guarda do meu filho Vitor deve estar cotó de tanto que eu puxo a asa dele.”

Maria Catarina Castanheira Bartholomeu não é do tipo que faz graça. Seu jeito de nos fazer rir é natural, espontâneo. Pula na frente da rotina, tirando a vida do lugar comum. Feito ontem na missa, ao discordar do celebrante em alto tom:

“- Esse padre tá ficando doido! Que trem é esse de o homem vai esquecer que tem mulher? Ele não pode falar isso não!”

Os fiéis da frente viram pra trás e o marido, José Bartholomeu Sobrinho (Bartolo), sorrindo.

“- O que ele não ri lá fora, ele ri comigo.”

“- Vocês combinam, né?”

“- A gente tem uma liga danada. São 57 anos de casamento.”

  Amor e humor, Catarina me diz que são as principais coisas de uma relação. É bacana ouvi-la relembrando o início do namoro:

“- Deitava no meu colo e ferrava no sono. Eu era apaixonada por ele.”

Paixão do passado e amor no presente do indicativo, é desse jeito que ela fala do marido: “- Falou que faz bem para ele, estou dentro.”

É lindo e incrível presenciar alguém, nos quase 60 anos de matrimônio, falar do seu companheiro com tanta admiração e cuidado. E não é um amor cego do tipo tudo é perfeito. Para ela pode até melhorar. Basta que seu sonho se realize: ter com Bartolo pelo menos 15 dias de férias por ano: “Ele trabalha de domingo a domingo!”

Numa viagem à China, enquanto o marido estava em Shenzhen trabalhando, Catarina ficou uns dias em Hong Kong (“foi um passeio maravilhoso apesar de eu estar sozinha”) se virando muito bem (“Eu falei, eu comprei, eu comi, eu pedi desconto, tudo em inglês do colégio”).

Quando bateram insistentemente no seu quarto (“xinxin xinzin”), Catarina, sem entender patavina (“vai tomar no seu c#%zin!”), fecha a porta na cara da mensageira do hotel que queria trocá-la de quarto. Sem compreender o motivo do “check-out”, apela para a oração (“O Espírito Santo é como um rótulo. É uma marca que Deus pôs na pessoa. Ele, o Filho e o Espírito Santo são a mesma coisa.”).

No dia seguinte, Catarina encontra uma igreja presbiteriana: “Um homem de preto partia o pão e uma mulher de branco molhava no vinho e punha na mão ou na boca da gente.  De cabeça baixa igual quando a gente comunga, eu estava incorporada de católica.”

De novo importunada à noite pelo hotel, Catarina bota em cima do telefone a novena da medalha milagrosa e pede: “Toca!” Os filhos e o marido ligam e a questão é resolvida.

Apesar de frequentar missas (“Eu sou rezadeira”), Catarina separa a religião (“inventada pelo homem”) da fé (“vem de Deus”). Reza, conversa com Ele e pede para os outros. “Para os meninos (as filhas Anna Karina e Daniella e o filho Vitor) peço demais. Nas minhas orações peço a justiça sobre os corruptos.” Pra ela, só saúde (“pra olhar meu marido”).

Animada, Catarina jogou vôlei uma vida inteira. Numa época sem ajudante, fazia todo o serviço da casa de dois andares.

 “- Qual academia você faz?”, perguntaram.

“- Lá em casa. Tenho rodo, pano de chão, tanque, cozinha pra lavar, comida pra fazer...”

Se depender de temperamento, vai viver bastante e bem. Ao contrário do que muitos pensam, ficar em casa pra ela não é monótono (“Se você sabe viver na sua companhia descobriu a felicidade”). Lá ela faz almoços, caminha cinco km, lê e escreve. Suas postagens na rede social são imperdíveis: “Contei meus problemas pras paredes que racharam de rir.”

“- O que é que vai sair disso? Esse seu escrito vai ser um fracasso, porque eu não te dei nada interessante.”

“- Ah, Catarina! Conversar com você é renovar a fé na raça humana!







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