CIDADE

Laene ComVida: 'Respeitemos nossa saúde mental'

14/06/2024 12:00




 “- Desânimo, exaustão, impaciência, amnésia, angústia...? Também tenho isso (risos)!”, desdenha o irmão da minha licença médica.

“- Coisa boa, sem trabalhar!”, comemora a amiga.

Num país considerado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) um dos mais depressivos e ansiosos do mundo, onde, por consequência, a comercialização de ansiolíticos, antidepressivos e sedativos cresce a cada ano, é contraditória a forma como muitas pessoas minimizam a saúde mental.

Eu mesma desconsiderei a minha, ao ignorar os sintomas, achar que daria conta, adiar médicos. Procurei ajuda só após o corpo doer em várias partes, a angústia transbordar e a mente empacar. Havia sempre uma vozinha “vai passar!” me convencendo a manter o ritmo, mesmo com a insônia, o aperto nos dentes e o oco no peito.

Dei tilt, ou seja, travei. Uma estagnação sem esperança. Um desgosto, um desconsolo. Se fosse dengue, virose, meningite, covid... seria um mal de tempo marcado, mas era chumbo na alma, paralisação nas pernas, vista turva e pensamento embolado. Uma coisa chamada pelos psiquiatras de estado depressivo, possível Síndrome de Burnout, transtorno de personalidade com instabilidade emocional.

  “Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu”: estive semanas presa nesse verso buarqueano: ausente, desesperançosa, inerte.  Até que a vozinha mudou o disco: “Vá se tratar!”

Terapia, fisioterapia, acupuntura e, como tanta gente no mundo, pílulas pra dormir e acordar. Tome tarja preta! Demorei pra aceitar que os comprimidos também são abençoados e o desgosto pela química no Ensino Médio tem se transmutado em gratidão. Venho tomando-os disciplinarmente.

 Os profissionais de saúde e as droguinhas de farmácia não agiram sozinhas. Tão importantes para minha recuperação têm sido os afagos. De Isabella e dos meninos peludos. O apoio da minha irmã. E a força da natureza.

Aquele pezinho já dando berinjela. O composto orgânico multiplicando os quiabos. A amora podada brotando rapidamente. Os beija-flores visitando a primeira flor do Camará. O bambuzinho enredando a cerca. A taioba pulando o canteiro. O casal de canarinhos rondando a nova casinha...

Perceber-me parte desses reinos, mais do que viva, é me sentir importante. É ter que sair da cama pra regar, colher, admirar, cuidar. E assim ser tratada. Ao final do dia, o roçar no manjericão, o café e o céu me enchem de alegria.  A água quente nas costas. A arnica no cotovelo inflamado. Tratar dos arranhões, dos calos e dos pequenos cortes é o ritual das noitinhas. Às vezes, babosa in natura. Noutras, Nebacetina.

Apesar de sair pro quintal quase todos os dias, ir à rua é raro, só para os tratamentos, algumas coisas básicas. Sem vontade de encontrar pessoas, cabeça doida pra voltar pra casa. Deitar, dormir. Sonhos esquisitos, vivos e mortos em enredos surreais.

Palavras conhecidas soam estranhas, no papel, não se encaixam nas frases. Meus olhos rodam no mesmo parágrafo sem alcançarem o contexto.
“- Busque o que te agrade fazer”, aconselha a psicóloga. Escrever: primeiro, listas. Depois, “A arca de Cloé”: história infantil iniciada há tempos e atualizada ao longo dos anos. Distraio, trago novas personagens, inspiradas em amigas e amigos, desejo ilustrações do Pyrtz e projeto gráfico do Fernando.

Pronto, a palavra me move. Na letra da música, na transcrição das entrevistas da FOLHA DE PONTE NOVA, na poesia de dona Laene, Matilde e Cecília.  “A vida não é útil “(me cai no colo esse livro de Ailton Krenak) me balança. Sacode mesmo. Como pode a mente querer apontar utilidades para essa maravilha que é viver? Deveríamos ter consciência do corpo, da mente e de “ser o que se é para escolhermos ir além da experiência da sobrevivência”, provoca o autor, para quem a vida é fruição, é dança. Sem coreografias pré-estabelecidas.

Foi preciso parar para dançar. Devagar, (me) admirar. Ontem, sonhei com minha médica ancestral me entregando uma receita:

“- Mar, vá ver o mar!”

 







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